Deixe seu bebê ver a vida!

Deixe seu bebê ver a vida!

Repense seus hábitos….

Você, com certeza, já reparou que em muitas sociedades as crianças são carregadas junto ao corpo das mães, principalmente antes de aprenderem a andar. Mas, alguma vez, você parou para pensar o porquê dessa tradição? Por que será que as índias nativas e as mães que fazem parte das culturas mais antigas e tradicionais não usam carrinhos onde os bebês ficam deitados, cobertos e protegidos do sol? A resposta é simples e deveria nos fazer repensar nossos hábitos.

O que acontece é que nessas culturas milenares, logo que a criança consegue firmar o pescoço, ela é transportada na posição vertical para que consiga observar o mundo. Seja nas costas ou na frente da mãe, utilizando dobras de roupas ou tecidos, o objetivo é sempre o mesmo. Nessa posição, o campo visual da criança é quase igual ao da mãe. Ela olha para a frente e pode observar todo o ambiente em volta praticamente do mesmo ângulo e na mesma altura que a mãe. O horizonte, as árvores, os animais e seus movimentos, as outras pessoas, tudo é captado pela criança da mesma maneira que a mãe observa seu ambiente. Na rua, por exemplo, quando um pássaro canta e a mãe vira a cabeça para observar, a criança também tem a chance de associar o canto que ouviu com o pássaro, a plumagem e as cores. Em casa, a criança pode observar o trabalho da mãe, ver como ela prepara a comida, o que a assusta, o que provoca o riso ou a tristeza na mãe. Ou seja, desde a antiguidade, carregar a criança na posição vertical faz parte do seu processo de educação.

Mas o que aconteceu depois que inventamos o carrinho de bebê? As crianças menores são transportadas deitadas de costas, olhando para o céu ou para a parte inferior do rosto de quem empurra o carrinho. A criança não compartilha a experiência visual da mãe, nem consegue associar as expressões faciais da mãe a objetos e sentimentos. Os sons ouvidos pela criança dificilmente podem ser associados a experiências visuais, atividades, objetos ou sentimentos. Deitadas, as crianças modernas só observam o teto (dentro de edifícios) ou o céu (ao ar livre).

Outro detalhe: como o céu é claro e incomoda a vista, muitos carrinhos possuem uma cobertura, o que restringe ainda mais o campo de visão. Não é de se espantar que um bebê, cujos ancestrais foram selecionados para aprender a observar o meio ambiente desde o início da vida, fique entediado e chore. E aí vem outra solução moderna: a chupeta que simula o bico do seio da mãe. Traduzindo: a modernidade supostamente mais confortável, distancia fisicamente a criança da mãe, empobrece o processo educacional e priva o bebê de experiências insubstituíveis. E mais: o desenvolvimento do córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens, não se completa durante a vida fetal. Esse processo fisiológico continua após o nascimento e depende de um estímulo visual constante. Os carrinhos de bebê de hoje são mais novos e práticos, mas será que são melhores para nossos filhos?

 

Fonte: jared diamond, “the world until yesterday. what can we learn from traditional societies”, viking 2012.

 

Escrito por Dra Luciana Herrero Ver todos os posts deste autor →

Esclarecimentos: 1- Esse blog não substitui as consultas de pediatria ou consultas médicas em geral. Tem como objetivo promover educação em saúde, favorecer o vínculo familiar e o estímulo a amamentação. 2- Dra. Luciana Herrero, apesar de possuir a formação em pediatria, não realiza atendimentos pediátricos. Trocou a clínica pela educação. Atua somente como educadora familiar, escritora e coordenadora da Aninhare (www.aninhare.com.br).