A Ditadura do Parto Perfeito

A Ditadura do Parto Perfeito

 

Nunca se falou tanto em parto como nos últimos tempos. Para o bem e para o mal. É bom falar para que as informações se propaguem e atinjam mais mulheres. Mas em algumas situações, a discussão ganhou contornos de um Fla-Flu ou um Corinthians-Palmeiras. De um lado da trincheira, naturalistas radicais. Do outro, cesaristas que se fecham para as novas evidências científicas.

Ah, e tem também as entrevistas com grávidas famosas e os relatos nas redes sociais que endeusam o parto natural como sendo um passaporte vip para ingressar na maternidade. Sem levar em conta as questões físicas e fisiológicas (que já abordamos em outros posts), esse cenário por si só causa uma pressão psicológica enorme sobre as mulheres. Como fica a cabeça da gestante que pensa em um tipo de parto e não consegue? Psicologicamente falando, o que um parto cesariano traria que um parto normal não traria e vice-versa?

Para começar, é imprescindível lembrar que cada gestante é única e tem necessidades individuais. Não se pode generalizar, afirmando que uma cesárea traria problemas emocionais para uma mulher, pois existem muitas mães que ficaram plenamente satisfeitas com o nascimento cirúrgico. Contudo, o inverso também é verdadeiro. Não são poucas as mulheres que se sentem subitamente esvaziadas após uma cesárea. Como se algo estivesse faltando em seu processo de maternagem. Como se sentissem falta de ter vivido algo, que nem sabem bem explicar o que é. Ou de haver terceirizado a chegada do filho. Muitas dessas mulheres têm maior tendência a depressão pós-parto.

Um outro fato que me preocupa muito, enquanto educadora familiar e perinatal, é o fato de muitas mulheres quererem tão intensamente um tipo de parto. E de lutarem tanto e cegamente por ele, que acabam esquecendo que o mais importante do parto é a chegada do bebê e não o nascimento em si. O parto é muito importante, é um portal e um rito de passagem, mas o pós-parto é muito maior. Eu incentivo as mulheres a estudarem muito sobre o assunto, para que façam escolhas conscientes e embasadas. Mas que também estejam abertas a possíveis mudanças nos planos. Como digo no livro “O Diário de Bordo do Parto”, devemos lutar muito para realizar o plano A, mas devemos estar abertas a um possível plano B ou C, em nome da saúde e segurança da mãe e do bebê.

 

Como lidar com as críticas de outras mulheres em relação à minha escolha de parto ou sobre a situação como teve que ser no momento do nascimento? Sou menos mãe por ter tido um parto cesariano? A mulher que deu à luz em casa, na água ou mesmo na maternidade por vias normais é mais mãe do que eu?

 

Apenas sorria com cara de paisagem e ignore! Eu sempre falo que devemos carregar em nosso coração duas sacolas. Uma delas bem firme, onde colocamos todas as informações relevantes, os aprendizados compartilhados e as experiências vividas. E outra, com o fundo rasgado, onde colocamos (e descartamos) os palpites prejudiciais, as opiniões radicais, os preconceitos e tudo mais que só nos faz mal (ainda mais para uma gestante, sempre tão sensível!). Ninguém é mais ou menos nada por querer viver sua vida de sua maneira. Ser mãe não é viver um parto X ou amamentar por tempo Y. A maternagem é muito mais ampla e profunda do que isso (e muito mais difícil também!). Ser mãe é uma construção diária que se inicia no BHCG positivo (exame positivo de gravidez) e que não termina nunca. Se quem te criticou não sabe disso, para quê dar importância ao que ela disse?

 

O que uma mulher precisa realmente saber antes de decidir que tipo de parto ela quer ter?

Eu acredito que ela deve, antes de mais nada, fazer uma boa autoanálise. Entrar em contato com seus sentimentos e com as lendas e mitos que carrega (há anos) dentro de si. No nosso livro, elaboramos com uma psicóloga especializada em famílias grávidas alguns exercícios de autorreflexão que podem ajudar. Depois dessa etapa inicial, é preciso arregaçar as mangas e, sem preguiça, preconceito ou medo, estudar a fundo o assunto nascimento. Só então, voltar a fazer uma autoanálise e sozinha, escutando seu coração, decidir que caminho deseja trilhar. E, claro, envolver o pai grávido na sua decisão como mulher e mãe.

 

O que fazer quando o médico praticamente a obriga a tomar alguma decisão – seja pela cesariana ou pelo parto normal?

Fuja desse médico! Nenhum profissional deve inferir, manipular ou sugestionar em favor dos próprios benefícios uma decisão de parto. A não ser que a paciente ou o bebê estejam em risco. Faz parte do conceito básico da humanização do nascimento o empoderamento da mulher e o respeito pelo protagonismo dela. Conheço muitos médicos que seguem a filosofia humanizada que quando percebem que a mulher deseja uma cesárea, sem nenhuma cerimônia ou melindre, indicam a paciente para um médico obstetra tradicional. Ou seja, também não tentam convencê-la de que o parto natural é melhor. Isso é o correto. Ser xiita não é uma atitude bacana, nem ética, seja para o parto normal ou cesárea. O problema é que a grande maioria dos obstetras tradicionais acabam levando o assunto com a barriga até a gestante estar com 37-38 semanas, e aí começam a sabotar o sonho dela de parto normal (mesmo sem indicação clínica real) ao falar frases ou comentários que geram insegurança na família grávida. São coisas como: “você está tão grande, será que vai dar certo” ou “nossa, coitado do seu marido depois do parto”. Saiba identificar e repudiar esse comportamento.

Escrito por Dra Luciana Herrero Ver todos os posts deste autor →

Esclarecimentos: 1- Esse blog não substitui as consultas de pediatria ou consultas médicas em geral. Tem como objetivo promover educação em saúde, favorecer o vínculo familiar e o estímulo a amamentação. 2- Dra. Luciana Herrero, apesar de possuir a formação em pediatria, não realiza atendimentos pediátricos. Trocou a clínica pela educação. Atua somente como educadora familiar, escritora e coordenadora da Aninhare (www.aninhare.com.br).