O direito de amamentar

O direito de amamentar

Em São Paulo é lei desde 14 de abril de 2015: o estabelecimento público, comercial ou cultural que coibir a amamentação em público terá que pagar multa. Agora, o senador Eduardo Amorim está propondo que isso seja seguido em todo o país e apresentou um projeto de lei que deve entrar em discussão em Brasília.

Aproveitando essa conquista, acho importante conversar sobre algumas questões que acabam passando pela cabeça das pessoas:

Por que amamentar em público?
Algumas pessoas acreditam que a mulher não deveria amamentar em local público, pois a amamentação é um ato de aconchego entre mãe e filho, que seria melhor vivenciado entre quatro paredes. Certo e errado. Verdade que a amamentação é um momento de troca e de afeto entre mãe e filho, e que quanto maior a sintonia entre eles, melhor. Contudo, não podemos esquecer do que comprovam as pesquisas e do que recomendam a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde: o padrão ouro da alimentação infantil é a amamentação em livre demanda nos primeiros 6 meses de vida. Ou seja, sem hora marcada, na hora que quiser e por quanto tempo desejar, o bebê pode e deve mamar. Sendo assim, o que fazer? Deixar a mulher em casa 6 meses para que ela não corra o risco de amamentar em público? Claro que não seria certo. Não devemos colocar a mulher de castigo só por estar amamentando. Ela deve poder realizar suas atividades rotineiras e também merece sociabilizar, passear e se distrair.

Por que este bebê está amamentando se já é grandinho?
Há uma diferença gigante entre o que é preconizado pela ciência mais moderna – amamentação até 2 anos de idade ou mais – e o que é aceito como normal ou adequado pela grande maioria da população. Uma pena constatar a discriminação a que são submetidas as mães que amamentam após o primeiro ano de vida. Pior ainda se tiver coragem de fazer isso em público! Na contramão desse preconceito e das críticas de plantão, a ciência cada vez mais comprova que a amamentação prolongada tem efeitos benéficos na primeira infância e também no resto da vida destas crianças, que quando adultas demostram ter QI maior do que a média e até mais sucesso financeiro na vida profissional. *

Por que a mulher não vai para a sala de amamentação e amamenta lá?
Cada vez mais locais, como os shoppings, oferecem um espaço destinado a amamentação. Acho uma iniciativa bacana, pois acolhe a necessidade das mulheres que se constrangem ao dar de mamar em público. Mas não devemos fazer deste espaço um local para segregar as mães que amamentam, obrigando-as a amamentar apenas nesses lugares. Precisamos entender e aceitar que a amamentação em público não é motivo de vergonha ou de desviar o olhar. Não é um ato libidinoso ou sujo e sim um ato de doação e amor, um exemplo de maternidade responsável e fonte de saúde e bem-estar para mãe e o bebê.

O que vou falar para meu filho (a) se encontrarmos uma mulher amamentando na rua?
Boa pergunta. Ensinamos nossos filhos através de nossos exemplos. Replicamos preconceitos ou mudamos culturas através de nosso comportamento. Não é necessário dizer nada em especial. O que é importante é que, como pais, tenhamos um comportamento adequado frente a uma situação que deve ser encarada como natural e sadia. Se surgir alguma pergunta, dizer apenas que a mãe está oferecendo o melhor leite do mundo a seu filho. Desta forma, ajudaremos a construir uma nova cultura de amamentação e um amanhã melhor para nossas filhas e filhos.

O que devo fazer diante de uma mulher que amamenta?
Minha sugestão é que você (homem ou mulher, velho ou novo) reaja com naturalidade. Se possível, olhe e dê um sorriso suave de aprovação. Essa mulher, com certeza, está cansada de receber olhares de reprovação. Mesmo assim, encara com coragem as retaliações veladas ou diretas para poder oferecer o melhor alimento para seu bebê. Isso já a torna digna de respeito e admiração, não é?

 

Foto da campanha criada por estudantes americanos para defender o direito de amamentar em público.

Referências bibliográficas:
*http://www.blog.saude.gov.br/index.php/35305-pesquisa-inedita-revela-que-amamentacao-pode-aumentar-inteligencia
*http://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(15)70002-1/fulltext

Escrito por Dra Luciana Herrero Ver todos os posts deste autor →

Esclarecimentos: 1- Esse blog não substitui as consultas de pediatria ou consultas médicas em geral. Tem como objetivo promover educação em saúde, favorecer o vínculo familiar e o estímulo a amamentação. 2- Dra. Luciana Herrero, apesar de possuir a formação em pediatria, não realiza atendimentos pediátricos. Trocou a clínica pela educação. Atua somente como educadora familiar, escritora e coordenadora da Aninhare (www.aninhare.com.br).