Por que tantas mulheres no mundo optam pela cesáreas?

Por que tantas mulheres no mundo optam pela cesáreas?

 

O Brasil vive hoje uma “epidemia de cesáreas” e é o país recordista mundial em partos realizados por meio de cirurgia. Já falamos bastante sobre isso aqui no blog e no livro “O Diário de Bordo do Parto”.

Atualmente, mais da metade dos bebês brasileiros nascem por cesárea – um índice que chega a 84,6% na rede particular. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o ideal é que a taxa de cesarianas fique entre 10% e 15% dos partos. Mas este não é um problema só nosso. Hoje, a cesariana é a cirurgia mais realizada em todo o mundo.

“Com 35 anos de experiência, vi o número de cesarianas crescer de forma significativa nos últimos 10 anos. Precisamos estar atentos a isso para garantir que ela seja realizada em mulheres que precisam da cirurgia, mas que não haja um abuso”, diz Marleen Temmerman, diretora do Departamento de Saúde Reprodutiva da OMS.

O Brasil e a República Dominicana lideram o ranking de cesáreas no mundo, com 56% dos partos ocorrendo por meio de cirurgia. Depois, vêm Egito (51,8%), Turquia (47,5%) e Itália (38,1%). México, Irã e Estados Unidos também registram mais nascimentos por cesárea que o recomendado.

A China não está no topo da lista – só 25% dos nascimentos são cesarianas – mas 32% destes partos não têm justificativa médica, o que o torna o país com o maior número de procedimentos deste tipo feitos de forma desnecessária.

 

Por que a cesariana se tornou o padrão em vez da exceção em tantos países pelo mundo?

As razões variam de acordo com cada nacionalidade, mas em sua grande maioria tem a ver com a cultura e os hábitos, passados de geração a geração.

No caso brasileiro, por exemplo, especialistas apontam que, antes de ser regulamentada nos anos 1990, a cesárea era vista como um procedimento “dois em um”, porque permitia realizar também a esterilização da mulher, tornando-se uma opção para aquelas que não queriam mais ter filhos. Mas hoje, a opção pela cesárea se dá principalmente pela conveniência dos médicos (que podem se programar para a cirurgia em vez de receber uma ligação inesperada no meio da noite e possibilita que façam várias cesarianas em um mesmo dia, tornando-as mais lucrativas do que o parto normal). “A mensagem enviada pela comunidade médica é que a cesariana é uma forma de parto mais moderna e higiênica, enquanto o parto normal é feio, primitivo e sujo”, diz Simone Diniz, do Departamento de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Diniz acredita que muitas mulheres se sentem pressionadas para optar pela cirurgia por seus médicos e enfermeiras, criando uma “máquina de fazer dinheiro” em torno dos partos.

O mesmo ocorre em outros países no topo do ranking da OMS.

Na Itália, por exemplo, uma pesquisa revelou que as cesáreas eram escolhidas por “medo da dor” do parto normal e porque são vistas como “menos traumáticas”, por envolver menos sangramento e menos riscos para o recém-nascido. Assim, torna-se uma questão de preferência pessoal. O estudo, publicado no periódico científico BMC Pregnancy and Childbirth, em 2013, também revelou que 33% das mulheres consultadas optariam pela cirurgia por causa da ausência da anestesia peridural para o parto normal. “É uma questão de política de saúde pública”, diz Ana Pilar Betran, médica da OMS que estudou o caso italiano. “O sistema não garante a disponibilidade contínua da anestesia em todos os centros de partos.”

Em outros países, a obsessão com o corpo tem um papel importante. Muitas mães que passam por parto normal sofrem cortes vaginais cirúrgicos, ou episiotomias, para facilitar o nascimento do bebê – uma prática que é fortemente questionada por quem defende o parto normal. “Algumas mulheres optam pela cesariana para preservar o aspecto ‘lua de mel da vagina'”, diz Temmerman.

A necessidade de se manter sexualmente atraente também é um forte motivo por trás do alto número de cesáreas em países da América Latina como México, República Dominicana, Chile e Argentina, afirma Diniz.

Já em países como os Estados Unidos, em que erros médicos podem levar a indenizações milionárias, o medo de ser responsabilizado legalmente caso algo saia errado com o parto normal faz com que médicos tendam para o parto cirúrgico.

Já na China, a alta taxa de cesarianas desnecessárias ocorre porque mães buscam ter seus filhos em datas específicas, que, segundo crenças populares, poderão beneficiar os bebês. As famílias chinesas também costumam estar presentes durante o momento do parto. Então, a cesárea acaba sendo escolhida para planejar melhor o que se torna um evento social entre os parentes da gestante.

 

O outro extremo

Na outra ponta deste cenário, países africanos, como Niger, Etiópia e Burkina Faso, registram menos de 2% dos partos realizados por meio de cirurgia. O que também não é legal. Pois está relacionado ao acesso precário a um sistema de saúde adequado. E precisa ser mudado.

O ideal

O nível desejado de cesáreas, segundo a OMS, é de 15% . Entre os países que se encontram nesse patamar estão países da Europa como a Holanda, onde o atendimento a gestante e ao parto são modelos internacionais. E a tendência crescente é de partos realizados em casa (65% dos partos), com uma abordagem mais natural, sem anestesia e com o apoio de parteiras. Os médicos entram em cena em casos mais complexos ou em uma necessidade real. Esse modelo provou ser de sucesso. Uma boa forma de conter o aumento dos partos cirúrgicos, e de bem acolher as mulheres nessa hora tão especial.

Fonte: www.bbcbrasil.com.br

 

Escrito por Dra Luciana Herrero Ver todos os posts deste autor →

Esclarecimentos: 1- Esse blog não substitui as consultas de pediatria ou consultas médicas em geral. Tem como objetivo promover educação em saúde, favorecer o vínculo familiar e o estímulo a amamentação. 2- Dra. Luciana Herrero, apesar de possuir a formação em pediatria, não realiza atendimentos pediátricos. Trocou a clínica pela educação. Atua somente como educadora familiar, escritora e coordenadora da Aninhare (www.aninhare.com.br).